Este artigo é resultado de profunda meditação que empreendemos acerca do clima organizacional vigente em muitas das organizações que conhecemos.
A primeira percepção é sobre sintomas que se manifestam e que dirigentes, proprietários, gerentes e lideranças provavelmente dispensam pouca ou nenhuma atenção. Esses sintomas foram muito bem tratados em artigo escrito por CORDEIRO¹ e me permito acrescentar como contribuição das minhas próprias reflexões os seguintes:
- Isolamento: dirigentes que passam mais tempo reunidos tratando de assuntos que “não dizem respeito ao pessoal de baixo”;
- Egoísmo: problemas de funcionários devem ser deixados na porta da empresa, afinal de contas a empresa não tem nada a ver com isto;
- Maus exemplos: prometer e não cumprir. Se as lideranças tem esses maus hábitos o que dizer dos operacionais?;
- Poder: faço o que eu mando, não faça o que eu faço. Se a sua organização ainda tem gente agindo desta maneira, provavelmente está doente;
- Falta de compromisso: líderes que só se comprometem oferecendo o pescoço dos outros não estão comprometidos com a organização;
- Mau caráter: elogia frente a frente e “desce a lenha” por trás;
- Ordens do chefe: eu até gostaria de ajudar, mas a diretoria... Olha só os proprietários me disseram que... São ordens dos diretores eu não posso fazer nada...
- Egocentrismo: quem decide sou eu, você não é pago para pensar e outras frases do gênero refletem esse tipo de comportamento aviltante.
Poderia enumerar uma dezena de outras situações e comportamentos onde o suposto líder se escora para mandar, para exercer o poder, para manter o status quo ou simplesmente para aviltar a base criativa de todos os colaboradores.
Esses supostos líderes estão aí, ocupando funções estratégicas, distribuindo sorrisos, tapinhas nas costas, onerando as folhas de pagamento e na maioria dos casos, contribuindo para que os sintomas de uma organização doente se agravem.
Precisamos encontrar gestores e lideranças que sejam profundamente humanos, capazes de entender que as organizações são muito mais do que um organograma ou um poleiro de cargos e funções, são, antes de tudo, organismos vivos que reagem aos estímulos internos e externos.
Nesse aspecto penso que as lideranças para serem efetivas devem desenvolver habilidades curativas, diagnosticando os males e as mazelas que envolvem o clima organizacional. Compreender que organizações são constituídas por pessoas e que pessoas têm sentimentos e cérebros.
Mas o que esperar de dirigentes que não sabem o que fazem? Seria o mesmo que entregar uma espaçonave para que um tratorista a pilotasse.
Quando dizemos lideranças curativas não estamos pensando em curandeiros, muito menos em profissionais de outras especialidades que não Administração. A raiz dos problemas se encontra por vezes, nas definições sobre a própria organização: visão, missão, valores e objetivos na maior parte das vezes são apenas tabuletas na parede.
É preciso que os elementos citados estejam arraigados na cultura organizacional de modo que todos estejam comprometidos com o sucesso, em fazer dar certo.
A esse respeito me lembro de uma história contada por Ligia Pelisier. Dizia ela que na Década de 60, quando americanos e russos disputavam quem levaria o primeiro homem à Lua, o Presidente dos estados Unidos visitou as instalações da NASA e lá, vendo um faxineiro limpando o piso perguntou a ele o que ele estava fazendo ali, ao que o faxineiro de pronto respondeu: “Estou ajudando a levar o primeiro homem à Lua”.
Essa pequena história ilustra bem o sentimento que deve permear a cultura organizacional. Saber exatamente para onde o barco vai; por que é afinal que todos os dias estamos aqui?
Muitos poderão dizer “mas estava tudo tão bem!”. Realmente, durante certo tempo tudo pareceu bem porque conflitos foram escamoteados e a sujeira ficou debaixo do tapete. O líder se encastelou em seu gabinete e os liderados literalmente “perderam o bonde”.
Por isto é importante não contratar um cargo, uma função, mas contratar gente. Se você quer ser exemplo, se você quer ser respeitado como líder, aprenda a ouvir o que o silêncio tem a dizer, aprenda a escutar as entrelinhas, aquilo que não tem sido dito. Saia do seu gabinete, escute as pessoas, peça-lhes a opinião, estimule-as a aprender sempre, valorize o trabalho delas, seja justo e imparcial, inspire pelo exemplo, cumpra o que diz e sirva, sirva sempre antes de exigir maior esforço de seus subordinados.
Se você acha absurdo ter que servir ou está se servindo de sua posição para esmagar, ludibriar, mentir, sofismar, fingir, simular, saiba a organização que você dirige está doente e precisa de liderança renovada, de uma liderança curativa, capaz de ir além do trivial, capaz de reunir a turma de baixo e assumir: sem vocês não vamos a lugar nenhum.
Para que isto aconteça é preciso coragem, ingrediente que anda faltando a muitos pseudo-líderes que infelizmente aumentam feito praga dentro das organizações, tornando-as em ambientes nocivos, capazes de desestimular e desestabilizar todos os colaboradores (que no caso desses pseudo-líderes, são vistos como escravos subalternos e indignos).
Se você é empresário pense nisto. Neste exato momento, longe de seus olhos alguém que você escolheu poderá estar exercendo essa pseudo-liderança em seu nome, inclusive usando o seu nome para justificar as barbaridades que comete.
(¹) CORDEIRO, Laerte Leite. "Empresas doentes". Dispoível em: . Acesso em: 22 NOV 2011.
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