quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A mula-sem-cabeça

Prometi que voltaria ao assunto. Pois bem, tratemos dessa criatura bizarra denominada chefe.

Conta o imaginário popular que houve um tempo, há muito tempo atrás, que perambulava pelo mundo uma mula-sem-cabeça. Um ser horripilante e nauseabundo que assustava as criancinhas e metia medo em todos os ajuntamentos humanos com que se deparava.

Mais tarde, não se sabe ao certo quantos séculos depois, dizem que no Século XX, a mula-sem-cabeça se instalou no centro das organizações. Embora desprovida dos principais sentidos, tinha enorme tato para assediar funcionárias do sexo feminino e às vezes, quando excedia um pouco na bebida, nem os rapazes escapavam.

Contam que fora importada para dentro da organização por seus principais predicados: provocar asco e promover o medo.

Se entregava por horas a fio a esmiuçar a vida de seus colegas e só ficava satisfeito quando fazia valer o poder que tinha nas mãos: mandar gente embora. Ao menor sinal de revolta lá estava a foice, o tacape e a borduna da mula-sem-cabeça agindo em plena luz do dia para açoitar, humilhar e despedir o infeliz trabalhador, que a essa altura valia menos do que um dólar furado.

A essa figura disforme, obtusa e bizarra deram o nome de chefe.

Seu prazer é desfazer, desautorizar, mediocrizar, ridicularizar, diminuir, ostentar o que não é, dizer aquilo que nunca faz e implantar crenças pessoais sobre seus comandados (vejam bem o termo, co-man-da-dos!).

Mas mesmo quem tem o poder um dia se depara com a vala; um dia poderá encontrar a sarjeta e dalí, em um só pulo, direto para o ostracismo.

Acontece que a alta direção decidiu, depois de avaliação criteriosa e da contratação de uma assessoria capaz, que a organização precisava de algumas mudanças. O chefe gritou, esperneou, esbravejou e até foi discutir (sim discutir, pois chefe não argumenta, discute!) com a alta direção. Chegou a insinuar que os diretores talvez estivessem sob forte carga emocional ou precisando de férias.

De nada adiantaram os reclamos do chefe. A assessoria chegou dizendo a que veio, promovendo reuniões com os colaboradores, fazendo perguntas sobre o clima organizacional, sobre a cultura organizacional e sobre o estado de espírito da equipe. Não tardou para que o chefe desse suas opiniões em tudo, ganhando tempo para "fritar" seus comandados. Ora queimava um, ora botava a culpa em outro e assim, de opinião em opinião, foi reforçando a convicção da assessoria: esta empresa está doente.

De tanto escutar as opiniões do chefe a equipe se acostumou a não questionar, não argumentar, eximindo-se assim, de toda a responsabilidade. O que a equipe não sabia é que o chefe sempre tem um "zap" debaixo da manga e quando foi chamado a prestar contas, evidente, colocou a culpa nos outros, se julgando super esperto (todo chefe se acha esperto, não se esqueçam disto!).

O que a mula-sem-cabeça (ops! O chefe) não sabia é que aquele bando de macacos que ele comandava ainda tinham cérebro e diante da abertura que a assessoria contratada oferecia, todos falaram, deram suas opiniões, foram ouvidos e começaram então a experimentar a bonança de um clima marcado pela compreensão, pelo estímulo à criatividade, pela inspiração de novas idéias que aprovadas pelo grupo logo eram colocadas em prática.

Enquanto isso o chefe se encastelava em sua sala pedindo relatórios e mais relatórios, trancafiado diariamente, abrindo a porta de sua sala para esbravejar e xingar. Pobre chefe, já não era mais ouvido, havia perdido o poder e por falar o que bem entendia, agora era obrigado a ouvir desaforos daqueles macacos anteriormente seus comandados.

Se tivesse dedicado alguma parte de seu tempo a cativar as pessoas, a inspirar o que as pessoas tem de melhor, talvez o chefe tivesse capacidade suficiente para entender o que um dos consultores estava dizendo a ele agora: you fired!

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